O Grande Panda mascava as folhas secas que o seu amigo Guaxinim lhes havia entregado antes de entrarem no barco. As folhas ajudavam-no a não se sentir enjoado com os solavancos da navegação e, assim, podia relaxar e apreciar a viagem O Jovem Dragão, sendo também um rápido nadador, por vezes saltava para a água e nadava junto ao barco ou subia para o ar e voava próximo dele. Não tinha sentido a necessidade de mascar as folhas, enquanto atravessavam o mar, pois bastava-lhe variar entre estar dentro do barco ou mover-se fora dele.
Rumavam em direção a oeste, com destino às Ilhas Cálidas, ao encontro da Mestra Libélula. Os comandantes do barco eram dois Pinguins gorduchos, daqueles que têm uma crista amarela na cabeça, de ar sério e cansado. Há muitos anos que atravessam o mar, transportando outras criaturas de um lugar para o outro. Gostavam de o fazer e faziam-no muito bem.
Iam já no segundo dia da viagem, mas antes do anoitecer chegariam à ilha do arquipélago, onde tinham o encontro marcado com a Mestra Libélula. Durante a viagem pelo mar, os comandantes Pinguins asseguraram que, se perguntassem a qualquer criatura pela Mestra, certamente ser-lhes-ia indicado o caminho para a encontrarem.
O barco atracou no porto da ilha e os dois amigos saíram e agradeceram aos Pinguins pela travessia. Dali a pouco já seria de noite e, por isso, concordaram ir ao encontro da Mestra na manhã seguinte. Eles jantaram e ficaram a dormir numa estalagem, a qual lhes pareceu acolhedora, e que pertencia a uma Iguana muito verde.
Ao pequeno-almoço, perguntaram ao dono da estalagem onde poderiam encontrar a Mestra. Com muita simpatia, a Iguana indicou-lhes o lugar onde ela costumava estar. Logo deu a entender que todos os habitantes da ilha a conheciam, portanto, o Panda e o Dragão não teriam dificuldade nenhuma em encontrar o seu dojo.
O arquipélago das Ilhas Cálidas era também conhecido pelas suas belas montanhas e grandes penhascos. Não admirava, por isso, que a maioria dos habitantes que os dois amigos viam à sua volta naquela ilha fossem criaturas voadoras. Eram os seres que tinham mais facilidade em se deslocar e viver entre as zonas altas e as zonas baixas daquele lugar. O Jovem Dragão observava em redor e admirava-se com o tamanho de alguns dos habitantes. Havia Pelicanos com bicos enormes, Garças altas e de pescoço comprido e Cegonhas cujas asas estendidas tapavam o Sol quando voavam à frente dele.
O dojo da Mestra Libélula ficava na montanha mais alta da ilha e os dois amigos teriam de fazer o caminho desde a vila portuária, onde ainda se encontravam, até ao topo. Sem nenhuma indecisão, o Grande Panda mudou para a sua forma de Águia e mostrou ao amigo Dragão que estava disposto a permanecer naquela forma o tempo necessário para facilitar a deslocação. E assim seguiram caminho.
Do céu, a vista do ar era magnífica. A natureza verde cobria quase toda a ilha, exceto nas zonas escarpadas com as rochas expostas e os pequenos vilarejos que se viam com as casas juntas e os caminhos de terra. Havia algo de fascinante quando o Jovem Dragão observava o olhar do Grande Panda em voo. Os seus olhos brilhavam com a alegria de uma criança e essa jovialidade transparecia na confiança com que deslizava pelo ar ao bater das suas grandes asas de Águia
Avistaram o dojo ao longe e voaram na sua direção. Parecia ser um grande espaço de treino a céu aberto. Ao aterrarem, os dois amigos surpreenderam aqueles que estavam focados no treinamento. Viam Gaivotas, Milhafres, Flamingos e outras criaturas, mas da Mestra Libélula nem sinal.
– Aqui! Aqui! – ouviram uma voz chamar da outra ponta do campo do dojo, onde estava uma Garça, e foram nessa direção.
A Garça tinha a sua cabeça repousada no pescoço dobrado em S e fitava-os descontraidamente, piscando os olhos devagar.
– O Mestre Manta avisou-me que chegariam – falou novamente a voz que tinham ouvido chamá-los; era feminina e suave, mas não parecia vir da Garça. – Que vontade que tinha de vos conhecer! Tenho estado à vossa espera.
Os dois amigos olharam um para o outro e perceberam que na sua mente se perguntavam sobre a mesma coisa.
– Ficamos agradecidos por ouvir o seu entusiasmo – sondou o Grande Panda olhando para a Garça. – Saberá então que esperamos encontrar a Mestra Libélula.
A Garça arregalou os olhos surpreendida e, em resposta, esticou o pescoço, apontando com o seu bico comprido para as lâminas de relva no chão. Uma pequena Libélula, de tons verdes e azulados, tinha passado despercebida mesmo em frente às pernas esguias da Garça. A Mestra Libélula, emitiu um risinho, levantou voo e pairou em frente aos dois amigos.
– E eu esperava encontrar um Panda e os meus muitos olhos veem uma Águia – disse a Mestra em tom de brincadeira. – Felizmente, a visão não é o meu único sentido e consigo saber que estou no encontro de quem esperava.
Se a Mestra Libélula tivesse pálpebras, com certeza teria piscado um olho ao Grande Panda. Seguiram-se as apresentações e a Mestra voou para o lado da Garça dizendo:
– Permitam-me que lhes apresente a Mestra Garça, a segunda Guardiã da Sabedoria do Ar, ainda que oficialmente somente um mestre possa usar -esse título de cada vez. Ela tem sido a minha parceira de confiança e, por vezes, a Mestra representante no meu lugar.
– Sejam bem-vindos às Ilhas Cálidas – disse a Mestra Garça, dando a ouvir pela primeira vez a sua voz que soava mais serena e madura. – Poderão contar com a nossa sabedoria para ajudarmos o Jovem Dragão na sua jornada.
Seguiram-se momentos descontraídos de conversa onde o Jovem Dragão ficou a saber que a Mestra Libélula era a mais jovem dos cinco Mestres Formidáveis. E apesar de se dizer que os cinco Mestres percorriam o mundo todo – mesmo os Mestres precisam de um lar para voltar – falou a Mestra Garça. E aquele dojo já era o lar onde tinham as duas crescido antes de desempenharem as suas atuais funções. Além disso, a Mestra Libélula explicou que o seu tamanho não a ajudava muito a percorrer o mundo com facilidade. Assim, muitas vezes a Mestra Garça ia no seu lugar quando ela era convocada. Caso a sua presença fosse mesmo necessária, abrigava-se entre as penas da amiga e viajam juntas.
O Jovem Dragão referiu a capacidade do Grande Panda em mudar de forma e perguntou se a Mestra Libélula não conseguiria fazer o mesmo. Ela esclareceu que tal era uma habilidade muito incomum e que apenas criaturas que tivessem um bom alinhamento interior o conseguiriam fazer. Requeria uma capacidade de concentração e de força de vontade bastante elevadas. Ainda assim, tinha conseguido fazê-lo uma vez e lembrava-se bem de ter sido a sensação mais estranha que experimentara. Partindo da sua biologia de inseto, ela tinha experimentado mudar para a forma de uma ave, bastante maior do que o seu corpo original e com sentidos muitos diferentes dos que estava habituada. A sensação fora tão desorientadora que não desejou voltar a fazê-lo e preferiu adaptar-se mantendo o seu corpo de nascença. Além disso, a companhia e a confiança da Mestra Garça eram uma bênção suficiente para não sentir pressão em transformar-se.
– Mas sabes que mais? Essa tua questão é muito pertinente e leva-nos à aprendizagem que te trouxe aqui – partilhou a Mestra Libélula. – A minha sabedoria mostra-me que todo o universo é uma Única Mente. E dentro dessa Mente são concebidas realidades preenchidas com muitas formas, e algumas delas nascem para viver experiências e sentir emoções com grande profundidade. A maioria dessas formas não é fixa, mas efémera. Tudo pode mudar num piscar de olhos, sendo a nossa mente aquela que gere todas essas mudanças. Assim, o comando sobre a mente significa também o comando sobre a forma e a matéria.
Houve uma pausa na conversa e a Mestra Garça prosseguiu.
– E sabes o que é interessante? Neste momento, a tua mente diz-te que este é o nosso primeiro encontro, e tu sente-lo como tal, mas, pelo menos para mim, eu já te tinha visto.
O Jovem Dragão sorriu em surpresa, tentando lembrar-se quando isso poderia ter acontecido. A Mestra Garça continuou.
– O Grande Panda fez tentativas de contacto com todos os Mestres Formidáveis para marcar estes encontros, e entre nós, os Mestres, a informação flui facilmente devido à ligação que partilhamos com os Elementos do planeta. Assim que, quando a Mestra Libélula tomou conhecimento do vosso encontro com a Mestra Elefanta ficou cheia de curiosidade de ver o teu desempenho. Mas alguém tinha de permanecer no dojo e, como a viagem era longa, eu fui no lugar dela. Com o consentimento da Mestra Elefanta, observei-te discretamente de longe. E assim contemplei o momento em que sentiste o pulsar do coração da natureza e em que partilhaste isso com a Mestr…
– Sim, sim! E que alegria foi! – interveio a Mestra Libélula – Eu não te conhecia, mas fiquei entusiasmada com a tua jornada! E também soubemos pela boca do Mestre Manta como dominaste a tele-empatia, como ele lhe chama – riu-se pela brincadeira da construção da palavra juntando telepatia e empatia. – Cada Mestre tem a sua sabedoria e a minha está ligada ao poder mental e ao conhecimento. Aquilo que tenho para te transmitir precisará de tempo para ser assimilado. Da mesma maneira que o corpo precisa de tempo para crescer, também a mente tem o seu próprio ritmo de crescimento – fez uma pausa para voar para outra posição e continuou. – Pode ser que a bênção da Estrela Régia te auxilie neste treino, mas durante as próximas semanas veremos como te sais.
Nos dias seguintes, o Jovem Dragão iniciou o mesmo treinamento que os outros estudantes do dojo já seguiam. Este consista em treinos de artes marciais, meditação e trabalhos comunitários, bem como cuidar das plantações de alimentos e limpar os espaços do dojo. Tudo servia o propósito de aumentar a robustez física e promover um maior foco mental. Para uma mente poder ser forte e ativa, precisa de um corpo igualmente forte e ativo que a sustenha. E, conforme os dias foram passando, o contributo desse progresso físico e mental ficara bem visível na capacidade do Grande Panda em mudar de forma. Conseguia fazê-lo com mais facilidade, e dado o caso de estarem a permanecer naquela ilha montanhosa levava-o a transformar-se em Águia várias vezes ao dia para conseguir acompanhar os seus colegas voadores nos exercícios aéreos e nas deslocações.
Um dia pela manhã, as duas Mestras juntaram todos os estudantes no pátio do dojo para a lição do dia. Nos dias anteriores tinham falado sobre o Qi, uma energia natural e misteriosa que dá vitalidade a tudo o que existe no Universo, e a lição de hoje continuava de onde tinham ficado na vez anterior.
– Assim como nós possuímos uma mente, também o planeta em que vivemos tem o seu próprio campo mental – começou por falar a Mestra Libélula. – Esse campo é sustentado por esta energia inteligente que chamamos de Qi, proveniente do Cosmos. O Qi compõe a base da energia que alimenta todas as nossas funções biológicas, daí a importância de o movermos com intenção pelo nosso corpo durante as práticas marciais. Mas, principalmente, porque é fonte que alimenta os nossos pensamentos. Quanto maior a nossa capacidade em absorver e usar o Qi, maior o nosso nível de inteligência e de consciência sobre nós e o mundo à nossa volta. Pode-se dizer que o Qi é uma substância invisível e inteligente, porque se auto-organiza, embora não tenha consciência própria. Na prática, isso significa que o Qi, por si só, atribui vitalidade a tudo o que preenche e se liga, mas não possui uma intenção inerente. No entanto, esta energia é atraída para seres que se tornaram conscientes e, ao seguir as diretrizes das suas intenções, tem o potencial de elevar todas as capacidades e sentidos desses seres, pois passa a mover-se de acordo com o foco da intenção, amplificando-a. Assim, ao nos tornarmos sensíveis à presença do Qi podemos comandá-lo como um poderoso instrumento de transformação de nós próprios e da nossa realidade.
– A vitalidade dos nossos corpos é regulada pelo sangue que corre dentro de cada um de nós – prosseguiu a Mestra Garça. – E quer se respire ar com pulmões ou se filtre água com brânquias, todos evoluímos para absorver naturalmente Qi pela respiração. Isso, porque ele está presente nas moléculas de oxigénio, as quais são depois transportadas através do corpo pelo nosso sangue. Esta não é a nossa única fonte de Qi, mas é a principal. Como tal, é importantíssimo saber como usar a respiração para extrair com maior eficiência o Qi do oxigénio.
Um Corvo-marinho interrompeu e perguntou:
– E quais são as outras fontes de onde absorvemos Qi?
– Ora, além daquele que recebemos pela respiração, também absorvemos o Qi que está presente naquilo que comemos – respondeu a Mestra Garça. – Uma outra parte também chega a nós através da luz do Sol. Contudo, esse caso é mais relevante para as plantas, sendo essa a sua principal fonte de Qi, já que desenvolveram corpos que são capazes de realizar a fotossíntese. E, por fim, uma pequena parte vem da corrente elétrica que trocamos no contacto do nosso corpo com a terra por baixo de nós.
Fez uma pausa para observar se o que disse tinha sido compreendido. Acenou com o seu bico para a Mestra Libélula, dando sinal de que podia continuar
– Muito bem, vamos à preparação! – declarou a Mestra Libélula começando a voar pelo meio dos seus aprendizes. – Inspirem! Sustenham o ar! Expirem – repetiu o comando mais nove vezes e em cada vez pediu para a respiração ser mais lenta e profunda.
– Todos conhecem os 4 Elementos – continuou – Terra, Água, Fogo e Ar. Os quais nas suas múltiplas combinações manifestam tudo o que conhecemos do Universo. Cada ser vivo possui uma ressonância especial com pelo menos um desses elementos. Além deles, existe o 5º Elemento, o Éter, aquele onde todos os outros são criados, mas não precisaremos de pensar nele por agora. Neste exercício vamos experimentar a ligação com cada um dos 4 Elementos e observar com qual, ou quais, sentimos uma maior ressonância.
No modo como foi instruído, o exercício requeria usar o foco e a intenção para sentir e movimentar o Qi presente em coisas da natureza que representassem cada um dos elementos. E depois, trazer esse Qi para dentro dos reservatórios de energia vital do corpo, testando a ressonância que havia com a essência de cada elemento.
O Jovem Dragão seguiu todos os passos. Ao seu lado, o Grande Panda estivera concentrado todo o tempo, fazendo também o exercício. Para o elemento terra concentraram-se no Qi do solo por baixo deles, o qual, sem surpresa, parecia ser o mais firme dos quatro. Era poderoso e seguro como uma montanha e acolhedor e reconfortante como uma cama de chão relvado aquecido ao Sol. Para a água foi pedido para sentir o Qi de várias fontes: da água do mar que rodeava a ilha, fresca e cheia de vitalidade, da água morna que humedecia a terra em profundidade e fluía lenta e graciosamente na base das montanhas e das gotículas de água que viajavam livres pelo ar e que se acumulavam nas nuvens do céu. A água era um elemento complexo e o Jovem Dragão pensou que se sentia profundamente mais ligado a este por ser como uma biblioteca do mundo natural. E histórias e livros eram coisas que o fascinavam. Sentiu o elemento fogo como o mais esquivo, contudo era também muito próximo, pois expelir fogo fazia parte da sua natureza de dragão, ainda que não dominasse por completo a técnica. A ligação ao Qi deste elemento tinha duas fontes, a luz do Sol que ilumina e alimenta toda a vida e o calor do coração no centro do planeta que aquece e fertiliza a terra onde crescemos. Por fim, o elemento ar estava a toda à volta, sempre presente, sempre em movimento. Reconhecia nele a liberdade que sentia quando voava. O seu Qi apresentava-se como o mais leve, o mais sereno e aquele que facilmente seria o melhor amigo entre todos os Elementos.
Se o Jovem Dragão tivesse os olhos abertos, teria visto a Mestra Garça a abrir as suas grandes asas e a batê-las com força, produzindo batidas sonoras ritmadas que se assemelhavam às pancadas lentas de um tambor. Em vez disso, o Jovem Dragão estava concentrado no exercício de meditação guiada e deixava-se levar pelos seus sentidos. Sentia o contacto com os elementos da natureza e pensou que ali, naquela pequena ilha, era a primeira vez na sua jornada em que se ligava conscientemente e daquela maneira a todos eles.
A Mestra Libélula voava por cima e em volta de cada um dos seus aprendizes, usando a vibração intencional e harmoniosa do bater das suas quatro asas para estabilizar o campo de energia que rodeava cada um deles, ajudando-os no reconhecimento do Qi.
A voz que guiava a meditação foi retomada pela Mestra Garça.
– Senti agora os 4 Elementos dentro do vosso corpo– disse quase a sussurrar, mas ainda audível. – Foquem-se nos minerais e no ferro que correm no vosso sangue e nos cristais que compõem os vossos tecidos orgânicos. Sintam a água que flui dentro de vocês e que hidrata todas as vossas células. Comandem o fogo da combustão interna que mantém o corpo aquecido e que produz a luz que ilumina a vossa mente. Concentrem-se no ar que entra nos vossos pulmões e que sustenta o ritmo biológico interno e vos liga aos ritmos naturais externos. Questionem com qual, ou quais, sentem que têm maior proximidade. Com qual o contacto é reenergizador para todo o vosso ser. Com qual se sentem em casa?
O bater das asas de ambas as Mestras aumentaram em ritmo e em volume, mantendo-se assim por um momento e diminuindo depois gradualmente até parar. Da sua parte o exercício estava concluído, e estavam a dar tempo e espaço para que cada um pudesse também regressar do estado meditativo e encontrar as suas respostas.
Nessa noite, durante a refeição do final do dia, as conversas versaram sobre quais dos Elementos se sentiam mais ligados. Sem surpresa, e por a maioria serem aves ou criaturas voadoras de ambientes marinhos ou aquáticos, os elementos ar e água eram os mais representativos. Também as Mestras partilharam que eram esses os dois Elementos com que tinham mais ressonância. O Grande Panda não teve dúvidas. Já sabia que a sua natureza pertencia ao elemento terra e o exercício confirmara-o. Porém o Jovem Dragão não partilhava da mesma certeza quanto a si próprio. Conseguiu ligar-se ao Qi de todos os 4 Elementos, mas daí não concluiu sobre um que se sobressaísse. Se tivesse de escolher um, diria que tinha sido a água. A profundidade que sentiu do Qi da água tinha-o fascinado. Mas, quando se deitou nessa noite, ficou a pensar se teria feito o exercício corretamente. Não tinha a certeza de ter sentido a ressonância que pensava que era suposto e por isso duvidava de si.
Nos dias seguintes, comentou o que sentia com o seu amigo Panda. Este aconselhou-o a ser paciente, pois que com o tempo teria uma melhor compreensão sobre aquilo que estava a sentir. Os dias passaram e o exercício dos 4 Elementos foi repetido mais duas vezes. O Jovem Dragão ficava cada vez mais convencido que não possuía ressonância com nenhum elemento em particular ou então poderia acontecer estar em ressonância com todos eles, daí não sentir uma diferença que fosse clara. Durante o tempo que passou, sentiu-se incomodado com estes pensamentos. Para ele, não se tratava de uma mera curiosidade, era autoconhecimento, o tipo de conhecimento mais valioso. Algo que, neste caso, lhe iria permitir usar a ligação com os Elementos a seu favor. Depois da terceira vez que fizeram o exercício, continuando a não ter uma certeza, decidiu falar com a Mestra Libélula para o ajudar a entender.
– Permite-me dirigir-te uma pergunta pessoal – disse a Mestra depois de ouvir o que o Jovem Dragão lhe confidenciou. – Tiveste contacto com outros dragões durante o teu crescimento? Por acaso aprendeste os segredos da tua espécie?
O Jovem dragão explicou que nunca houvera um relacionamento próximo com outro da sua espécie. Os poucos contactos que existiram com outros dragões foram breves e esporádicos. Se havia segredos para aprender, desconhecia-os.
– Entendo – retomou a Mestra Libélula – Deixa-me então libertar-te das dúvidas que tens sentido. Sabes… existem raras exceções onde se pode nascer com a ligação aos 4 Elementos. E a tua espécie é uma das poucas que consegue tal feito, pois os dragões beneficiam de um antigo pacto forjado com os Elementos da Natureza. Os dragões foram abençoados pelos Elementos e em troca prometeram servi-los enquanto seus guardiões. No entanto, os dragões não são todos iguais, como já deves ter descoberto. Nem todos manifestam um talento para servir os 4 Elementos ou podem escolher também dedicar-se à ligação de um só ou dois deles, de acordo com o que sentem ser a sua missão no meio natural. Mas aquilo que consigo ver, é que dentro de ti flui o potencial completo das forças da criação. O facto de não sentires uma ligação mais forte com nenhum dos Elementos é porque possuis ressonância com todos eles. E, na verdade, a tua ligação à Água, à Terra, ao Ar e ao Fogo é uma consequência da tua ligação ao Éter, o 5º Elemento, onde a tua essência de dragão reside. O Éter é a mãe e o pai de todos os outros Elementos. É a natureza invisível do Cosmos e o meio pelo qual todos os outros 4 Elementos conseguem manifestar-se. Repara, o Éter é a fonte do Qi e é, portanto, a razão do Qi conseguir ligar-se a todos os elementos da criação, sabendo sempre como se organizar e atuar.
À medida que foi ouvindo as palavras da Mestra, os olhos do Jovem Dragão cresceram em brilho. Sentiu pelo corpo um arrepio que lhe confirmou a verdade que aquelas palavras representavam dentro de si. Num determinado instante, sentiu-se impelido e perguntou como poderia reconhecer essa sua ligação ao Éter.
– Há coisas que mesmo eu não tenho conhecimento – respondeu a Mestra Libélula. – Não sei como te guiar melhor nesse contacto com o Éter, pois ele é um elemento completamente diferente dos outros quatro. Mas sei que todos nós estamos ligados a ele por intermédio do Qi. Assim, se quiseres explorar a tua ligação com o 5º Elemento, começa por fortalecer o domínio sobre o teu próprio Qi. – A Mestra fez uma pausa e ajustou a sua posição no ar, parecendo estar a pensar.
Mudou de posição no ar mais uma vez e por fim disse:
– Olha… amanhã de manhã traz o Grande Panda e vem ter comigo. Vamos fazer um exercício especial com essa mesma intenção. Será bom para os dois.
No dojo, os dias começavam cedo, pouco antes do nascer do sol. O Jovem Dragão e o seu amigo Panda viram a Mestra Garça a preparar-se para iniciar a primeira atividade do dia com o restante grupo. Ela sabia que a Mestra Libélula ia fazer com eles um exercício em particular e disse-lhes que a encontrariam na cascata perto do dojo.
Uma nascente de água corria do topo da montanha e descia pelas escarpas, criando uma estreita cascata num nível mais abaixo da zona onde ficava o dojo. A vegetação húmida e as árvores verdes abriam-se em volta de um pequeno lago que se tinha formado na base da cascata, abrandando o curso da água antes dela descer montanha abaixo. A Mestra fora meditar para ali antes do nascer do Sol, já era um dos seus costumes, e pensou que seria um ótimo lugar para se concentrarem no exercício.
– Bom dia! – cumprimentaram-se quando se viram.
– Para fazer o tal exercício especial de que falei, quero vos pedir para nos ligarmos os três em mente e coração – declarou a Mestra Libélula. – Vamos fazer o exercício comunicando apenas mentalmente, pode ser? Sugiro também que permaneçamos no ar, para termos liberdade de movimento. Não sei bem qual será o resultado, mas vamos a isso!
Os dois amigos acenaram que sim. O Grande Panda já tinha chegado transformado em Águia e ele e o Jovem Dragão foram-se posicionar ao lado da Mestra, alguns metros acima do lago. A partir desse momento a comunicação foi recebida na mente partilhada dos três. De olhos fechados e com os sentidos apurados, seguiram a voz da Mestra que, em sintonia com eles, os guiava em meditação.
– Começamos por sentir o campo de energia que envolve o nosso corpo e que cresce a partir do nosso coração…. Respiramos lentamente e sincronizamos o ritmo do pulsar do coração com a nossa respiração profunda. Ao focarmo-nos novamente no nosso campo veremos que agora é possível expandir os seus limites. Isso mesmo…. Vamos continuar a ampliá-lo até ele envolver a natureza que está aqui à nossa volta e a senti-la como parte de nós.
Houve uma pausa coletiva onde os três se concentraram nessa tarefa. Conseguiam sentir-se mutuamente, pois as suas mentes e agora os seus campos energéticos estavam unidos em sintonia. A Mestra prosseguiu falando, desta vez, diretamente para cada um deles.
– Se sentes o vento mover-se à tua volta e consegues unir-te ao seu Qi, então torna-te uno com ele e sê o vento que move o ar em teu redor – a intensidade do vento aumentou e a folhas das árvores restolharam. – Se sentes as ondas no lago que se formam pela queda da cascata, une-te ao Qi dessa água e movimenta as ondas com a tua vontade – por instantes as ondas ficaram suspensas no seu movimento e depois iniciaram uma nova dança, formando lindos padrões geométricos em movimento. – Se sentes a vibração da terra a comunicar contigo, lança as tuas raízes para o fundo, liga-te ao mundo mineral e deixa que a terra nutra o teu corpo – um sentimento de poder ilimitado preencheu os três, assim como toda a natureza em redor. – Se sentes a luz do Sol a aquecer o teu corpo, segue a origem dessa luz até tocares a grande estrela que nos ilumina. O seu Qi dá-nos a vida e a nossa vida também irradia a sua luz. Sejamos a luz que irradia vida para o mundo – a vegetação ficou mais verde e radiante e flores floresceram em toda a volta.
Mesmo de olhos fechados, o mundo parecia brilhar em mil e uma cores. Tinham reunido e entrançado o Qi dos quatro Elementos no interior do seu campo. Intuitivamente, cada um deles começou a concentrá-lo numa espiral em movimento dentro de si, até sentirem que daquele vórtice de energia transbordava um elevado poder de criação e de transformação. O Jovem Dragão sentiu que tinham criado um ponto singular de contacto com o Éter, o 5º Elemento. Um pulso de alegria surgiu do seu interior e irradiou a partir dele, contagiando os seus dois companheiros. Numa fração de segundo, o mundo e o tempo pareceram parar e o campo de pura energia que os rodeava pareceu ampliar-se para o infinito, unindo-os a todo o Cosmos. Cada um sentiu o estado mais puro da sua essência, num momento que pareceu durar uma eternidade.
No entanto, essa eternidade durou somente um instante, terminando logo que começou, ao ser interrompido com o som de algo a cair estrondosamente no lago. O Jovem Dragão abriu os olhos e nem viu o Grande Panda nem a Mestra Libélula. Abaixo dele, aquilo que caíra no lago lançara água pelo ar e, por entre as gotículas suspensas, formara-se um vibrante arco-íris. Viu uma forma escura que se movia debaixo de água; ascendeu à superfície e saltou no ar, mergulhando novamente. Quando regressou à superfície permaneceu a flutuar e esboçou para o Jovem Dragão um sorriso traquina. A sua expressão familiar fê-lo reconhecer automaticamente o seu amigo Panda, apenas com uma forma diferente, a forma de um grande Leão Marinho.
Pensou em seguida na Mestra Libélula, onde estaria ela? Então à sua volta uma brisa envolveu-o e acariciou-lhe os pelos brancos do corpo; defronte da sua cara viu a Mestra Libélula a aparecer do nada, como se estivesse invisível até esse instante. E acontecera isso mesmo, pois logo de seguida ela voltou a desaparecer e sentiu a brisa novamente a tocar-lhe a cara. A Guardiã da Sabedoria do Ar obtivera a habilidade de tornar-se no próprio elemento do Ar e de comandar o seu vento como parte de si mesma.
A alegria que envolvia o Jovem Dragão rejubilou em euforia ao assistir àquelas revelações. Inundado por aquele sentimento, ele lançou da sua boca um jato de chamas de fogo azul e laranja em direção ao céu. A Mestra Libélula na sua forma elemental, acelerou o ar em volta das labaredas e transformou-as numa espetacular espiral de chamas que ascendia no ar e que se desvanecia por fim. O Jovem Dragão, preenchido pelo sentimento de euforia, sentiu-se impelido a voar em direção ao lago e a mergulhar nele com o seu amigo, agora na forma de um Leão Marinho. E assim passaram os três a manhã, a brincar com as suas novas habilidades.
Alguns dias depois, a Mestra Libélula conversou com o Jovem Dragão e o Grande Panda. Disse-lhes que haviam superado o que inicialmente planeara transmitir-lhes e, por isso, sentia que tinha concluído a sua parte no que se relacionava com a jornada do Jovem Dragão. Contudo, estendeu-lhes o convite para permanecerem no dojo o tempo que desejassem e até o Grande Panda conseguir marcar o encontro com o próximo Mestre Formidável, o Guardião do Fogo.
Os dois amigos haviam chegado às Ilhas Cálidas há quase dois meses e, desde o início da jornada do Jovem Dragão, seis luas cheias já tinham cruzado os céus. O encontro marcado com a Árvore Mãe na décima segunda lua ainda estava longe e, portanto, havia tempo para ficarem mais um pouco no dojo e ainda conseguirem visitar os dois últimos Mestres que faltavam.
De facto, era de todo o seu interesse continuarem com a rotina de treinos e de exercícios no dojo, pois estes demonstraram ser de grande ajuda ao promover o desenvolvimento físico e mental de ambos. Além disso, no período que ali estiveram, apreciaram que esse desenvolvimento lhes conferira uma melhor estrutura interior para conseguirem gerir e integrar as emoções mais turbulentas que tinham ficado guardadas do seu passado.
Com esse tempo extra, podiam explorar mais um pouco da ligação experienciada sobre o lago da cascata. Os três compartilharam um momento de puro êxtase, pois num piscar de olhos, foram tocados pelo poder de toda a Criação. O Jovem Dragão experienciara uma completa harmonia com o mundo e isso manifestara-se plenamente no domínio do seu fogo interior. A Mestra Libélula despertou uma capacidade única de dissolver a sua forma física e de se unir com o elemento Ar, conseguindo transitar entre um estado e o outro pela sua livre vontade. O Grande Panda, mais uma vez provava porque era o Guardião do Equilíbrio, demonstrando uma capacidade superior em adaptar-se a novas dinâmicas e a fluir através do que surgia.
– Naquele dia senti que a vida de todos é maior do que a nossa – confessou o Grande Panda ao Jovem Dragão numa das noites que se seguiram. – Senti o rumo que esta tua jornada irá tomar e da importância que ela terá para todos. Não foi necessariamente algo de concreto, mas sim sensações ligadas ao futuro próximo mais provável em acontecer. Nesse momento, soube que terei de estar presente incondicionalmente ao teu lado. Onde for necessário eu ir, seja em terra, no ar ou na água, irei contigo…!
O Jovem Dragão sentiu o amor que o seu amigo nutria por ele, disso não havia dúvidas, mas também se apercebeu do sentido de responsabilidade que havia nas palavras que dissera. Na vida do Grande Panda havia uma entrega de serviço à comunidade que, enquanto Guardião, não escolhia abandonar.
– Apesar da minha longa experiência de vida, por vezes ainda tenho medo de algumas mudanças – prosseguiu o Grande Panda. – Mas a minha sabedoria diz-me que não devemos temer mudar quando algo precisa de ser mudado. Uma pequena mudança gera mudanças sucessivas, até todo o sistema encontrar um novo equilíbrio. E isso acontece a todo o momento. Tudo que existe está sempre num equilíbrio dinâmico, em constante mudança e adaptação. Para cada força, há outra força oposta, para todas as peças há um encaixe e todas as partes de um sistema complementam-se e fortalecem-se mutuamente quando se unem. Essa é a perfeição do mundo.
Algumas semanas depois, chegou o momento de voltarem para casa. Fizeram um jantar de celebração no dojo onde puderam despedir-se dos seus colegas e da Mestra Libélula e da Mestra Garça. O Jovem Dragão não sabia quando os voltaria a ver, mas as experiências que partilharam permaneceriam na sua memória.
Na noite em que partiram pelo mar, a lua cheia iluminou-lhes o caminho. Em vez de irem de barco, escolheram fazer a travessia usando os frutos do treino dos últimos meses. Era a sétima lua cheia da sua jornada, o clima estava quente e os dois amigos seguiram ora a nado pelo mar, ora em voo pelo ar.
Rumavam de novo para a Vila da Enseada, onde tinham estado pela última vez, na casa do amigo Guaxinim. De noite iam se guiando pelas luzes dos barcos que encontravam fazendo a travessia, e de dia conseguiam ver de longe a rota dos barcos. Algumas vezes pediram para descansar em barcos que iam para a vila, mas durante os dois dias e meio da travessia, deram preferência em moverem-se por eles mesmos. Não tiveram a ajuda dos comandantes Pinguins da primeira viagem. Contudo comungavam de uma nova união com eles próprios e com o mundo, e isso impelia-os mais longe do que qualquer transporte.
Pela semelhança com os personagens Grande Panda e Pequeno Dragão criados por James Norbury, esta fábula é complementada com duas ilustrações suas. A ligação ao seu instagram é um convite a descobrir a sua sabedoria zen.
* imagem do cabeçalho: Clockbirds
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